dezembro 11, 2008

O Evangelho dos evangélicos

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Compartilho, juntamente com o pastor René Kivitz, que um é o evangelho dos evangélicos, outro é o evangelho do reino de Deus. Ao nosso entendimento, se faz uso do termo “evangélico” para referir à face hegemônica da chamada igreja evangélica, como se apresenta na mídia radiofônica e televisiva.

Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” (Mateus 7.21)

O evangelho dos evangélicos é estratificado. Tem a base e tem a cúpula. Precisamos falar com muito cuidado da base, o povo simples, fiel e crédulo. Mas precisamos igualmente discernir e denunciar a cúpula. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé; a cúpula, muita vez é oportunista, mal intencionada, e age de má fé. A base transita livremente entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões afro. A base vai à missa no domingo, faz cirurgia em centro espírita, leva a filha em benzedeira, e pede oração para a tia que é evangélica. Assim é o povo crédulo e religioso. Uma das palavras chave desta estratificação é “clericalismo”: os do palco manipulando os da platéia, os auto-instituídos guias espirituais tirando vantagem do povo simples, interesseiro, ignorante e crédulo.

A cúpula é pragmática, e aproveita esse imaginário religioso como fator de crescimento da pessoa jurídica, e enriquecimento da pessoa física. Outra palavra chave é “sincretismo”. A medir por sua cúpula, a igreja evangélica virou uma mistura de macumba, protestantismo e catolicismo. Tem igreja que se diz evangélica promovendo “marcha do sal”: você atravessa um tapete de sal grosso, sob a bênção dos pastores, e se livra de mal olhado, dívida, e tudo que é tipo de doença. Já vi igreja que se diz evangélica distribuir cajado com água do Jordão (é, um canudo de ‘bic’ com água de pia), para quem desejasse ungir o seu negócio, isto é, o seu business. Há um programa de TV onde o apresentador prometia que Deus liberaria a unção da casa própria para quem se tornasse um mantenedor financeiro de sua igreja.

O povo religioso é supersticioso e cheio de crendices. Assim como o Brasil. Somos filhos de portugueses, índios, africanos, e muitos imigrantes de todo o planeta. Falar em espíritos na cultura brasileira é normal. Crescemos cheios de crendices: não se pode passar por baixo de escada; gato preto dá azar; caiu a colher, vem visita mulher, caiu garfo, vem visita homem; e outras tantas idéias sem fundamento. Somos assim, o povo religioso é assim. Tem professor de universidade federal dando aula com cristal na mão para se energizar enquanto fala de filosofia.

E a cúpula evangélica aproveita a onda e pratica um estelionato religioso: oferece uma proposta ritualística que aprisiona, promove a culpa e, principalmente, ilude, porque promete o que não entrega. Aliás, os jornais começam a noticiar que os fiéis estão reivindicando indenizações e processando igrejas por propaganda enganosa.

A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé, e a cúpula é oportunista. A base transita entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões-afro, e a cúpula é pragmática. A base é cheia de crendices e a cúpula pratica o estelionato religioso.

O evangelho dos evangélicos é mercantilista. De lógica neoliberal.

Nasce a partir dos pressupostos capitalistas, como, por exemplo, a supremacia do lucro, a tirania das relações custo-benefício, a ênfase no enriquecimento pessoal, a meritocracia – quem não tem competência não se estabelece. Palavra chave: prosperidade.

Desenvolve-se no terreno do egocentrismo, disfarçado no respeito às liberdades individuais. Palavra chave: egoísmo.

Promove a desconsideração de toda e qualquer autoridade reguladora dos investimentos privados, onde tudo o que interessa é o lucro e a prosperidade do empreendedor ou investidor. Palavra chave: individualismo.

Expande-se a partir da mentalidade de mercado. Tanto dos líderes quanto dos fiéis. Os líderes entram com as técnicas de vendas, as franquias, as pirâmides, o planejamento de faturamento, comissões, marketing, tudo em favor da construção de impérios religiosos. Enquanto os fiéis entram com a busca de produtos e serviços religiosos, estando dispostos inclusive a pagar financeiramente pela sua satisfação. Em síntese, a religião na versão evangélica hegemônica é um negócio.

O sujeito abre sua micro-empresa religiosa, navega no sincretismo popular, promete mundos e fundos, cria mecanismos de vinculação e amarração simbólicas, utiliza leis da sociologia e da psicologia, e encontra um povo desesperado, que está disposto a pagar caro pelo alívio do seu sofrimento ou pela recompensa da sua ganância.

O evangelho dos evangélicos é mágico. Promove a infantilização em detrimento da maturidade, a dependência em detrimento da emancipação, e a acomodação em detrimento do trabalho.

Para ser evangélico ninguém precisa amadurecer, não precisa assumir responsabilidades, não precisa agir. Não precisa agregar virtudes ao seu caráter ou ao processo de sua vida. Primeiro porque Deus resolve. Segundo porque se Deus não resolver, o bispo ou o apóstolo resolvem. Observe a expressão: “Estou liberando a unção”. Pensando como isso pode funcionar, imaginamos que seria algo como o apóstolo ou bispo dizendo ao Espírito Santo: “Não faça nada por enquanto, eles não contribuíram ainda, e eu não vou liberar a unção”.

Existe, por exemplo, a unção da superação da crise doméstica. Como isso pode acontecer? A pessoa passa trinta anos arrebentando com o seu casamento, e basta se colocar sob as mãos ungidas do apóstolo, que libera a unção, e o casamento se resolve. Quem não quer isso? Mágica pura.

O sujeito é mau-caráter, incompetente para gerenciar o seu negócio, e não gosta de trabalhar. Mas basta ir ao culto, dar uma boa oferta financeira, e levar para casa um vidrinho de óleo de cozinha para ungir a empresa e resolver todos os problemas financeiros.

Essa postura de não assumir responsabilidades, de não agir com caráter, e esperar que Deus resolva, ou que o apóstolo ou bispo liberem a unção tem mais a ver com pensamento mágico do que com fé.

O evangelho dos evangélicos tem espírito fundamentalista. O espírito fundamentalista é literalista, e o mais grave é que se julga o portador da verdade, não admite críticas, considerações ou contribuições de outras correntes religiosas ou científicas.

Quem tem o espírito fundamentalista não dialoga, pois considera infiéis, heréticos, ou, na melhor das hipóteses, equivocados sinceros, todos os que não concordam com seus postulados, que não são do mesmo time, e não têm a mesma etiqueta. Quem tem o espírito fundamentalista se considera paradigma universal. Dialoga por gentileza, não por interesse em aprender. Ouve para munir-se de mais argumentos contra o interlocutor. Finge-se de tolerante para reforçar sua convicção de que o outro merece ser queimado nas fogueiras da inquisição. Está convencido de que só sua verdade há de prevalecer.

O fundamentalista desconhece que o amor consiste em não fazer da diferença, divergência. Por causa do espírito fundamentalista, o evangelho dos evangélicos é sectário, intolerante, altamente desconectado da realidade. O evangelho dos que têm o espírito do fundamentalismo é dogmático, hermético, fechado a influências, portanto, é incoerente.

O evangelho dos evangélicos é um simulacro. Simulacro é a fotografia mais bonita que o sanduíche. Não nos iludimos, o evangelho dos evangélicos é mais bonito na televisão do que na vida. As promessas dos líderes espirituais são mais garantidas pela sua prepotência do que pela sua fé. Temos muitos profetas na igreja evangélica, mas acreditamos que tenham muito mais falsos-profetas. Os testemunhos dos abençoados são mais espetaculares do que a realidade dos cristãos comuns. Às vezes, cremos que estes programas, é jogada de marketing, testemunho falso. Mas o fato é que podem ser testemunhos por amostragem. Isto é, entre os muitos que faliram, há sempre dois ou três que deram certo. O testemunho é vendido como regra, mas na verdade é apenas exceção.

A aparência de integridade dos líderes espirituais é mais convincente na TV e no rádio do que na realidade de suas negociatas. A igreja evangélica esta envolvida nos boatos com tráficos de armas, lavagem de dinheiro, acordos políticos, vendas de igrejas e rebanhos, imoralidade sexual, falsificação de testemunho, inadimplência, calotes, corrupção, venda de votos.

A integridade do palco é mais atraente do que a integridade na vida. A fé expressa no palco, e nas celebrações coletivas é mais triunfante, do que a fé vivida no dia a dia. Os ideais éticos, e os princípios de vida são mais vivos nos nossos guias de estudos bíblicos e sermões do que nas experiências cotidianas dos fiéis. Os gabinetes pastorais que o digam: no ambiente reservado do aconselhamento espiritual a verdade mostra sua cara.

Estratificado, mágico, mercantilista, fundamentalista, e simulacro. Eis o evangelho dos “evangélicos”.
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6 comentários:

Alexandre Pirola disse...

Querido irmão James...

Quero agradecer por este post.
Portanto: OBRIGADO !!!

Aqui na minha cidade tem pastores desfilando com adesivos em seus carro escrito: "Muito prazer, meu nome é SUCESSO"

Teologia da prosperidade, teologia quantica, hedonismo, etc...
É o que se vê hoje entre os "evangélicos".

PAZATODOS !!!

james disse...

Graça e paz vos sejam multiplicadas, amado irmão Alexandre Pirola.

Louvemos, ajoelhemo-nos, prostremos diante do Senhor que nos criou, pois, dEle são todas as coisas, e que nos abriu aos olhos para que possamos ver o quanto as pessoas, os evangélicos, estão brincando de religião...

Deus o abençoe ricamente e por sua honrosa visita ao nosso humilde blog.

Fraternalmente.
James.

Agnaldo Gomes disse...

Post nota 10!
Um verdadeiro raio-x de tudo que, infelizmente, está acontecendo com a Igreja.
Que o Senhor nos dê forças para continuar firmes em meio à tantas "aberrações".
Um abraço,
Agnaldo Gomes
Desperta Igreja!

james disse...

Graça e paz vos sejam multiplicadas, amado irmão Agnaldo Gomes.

Em verdade, tudo quanto assistimos, escândalos e escândalos, em muito distanciam as almas dos caminhos do Senhor, mas oremos e nos humilhemos diante do Senhor que nos dá sabedoria e esperança diante tantas “aberrações” ...

Deus a abençoe e aos seus ricamente, e por sua rica presença em nosso humilde blog.

Fraternalmente.
James.

'Sola Scriptura' disse...

Irmão James, de onde o irmão tirou tanto argumento? É de mensagens como essa que precisamos. É como diz o Rabino Marcelo Guimarães, não precisamos mais de uma Reforma mas de uma Restauração. E ele explica que restaurar é voltar ao original*, reforma não.

*Restaurar o evangelho vivido e promulgado pelos apóstolos de Yeshua no Século I.

A cúpula tem que manter a platéia e para isso, falar a mensagem que eles querem ouvir e não a que D'us quer que seja entregue. Caso contrário não fica ninguém.

66 Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele.
67 Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos?
68 Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.
69 E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente. (Jo. 6)

james disse...

Graça e paz vos sejam multiplicadas, irmão do 'Sola Scriptura'.

Sábias as palavras do rabino Marcelo Guimarães, da necessidade urgente de uma Restauração do organismo que hoje, se chama igreja!

Quando da Reforma, em tempos de Martinho Lutero, o homem almejava os céus e o perdão de seus pecados em troca de suas posses, porém, neste tempo presente, o homem, não mais almeja tão glorioso céu, mas o status, a glória, a riqueza, e ser um ‘deus’ evangélico, quando este está presente nos palcos shows, e, quanto aos que o assistem, estes barganham com Deus por bens materiais...

E nós temos crido e conhecido que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivente. Aleluia!

Deus o abençoe e aos seus ricamente, e por sua rica presença em nosso humilde blog.

Fraternalmente.
James.